
Cledson Sady é membro da Academia Jacobinense de Letras
Em 2009 escrevi um artigo para o II Seminário Nacional de Humanização intitulado de “Saúde mental em cidade com menos de 20 mil habitantes, que foi acolhido pelo Humanizasus. Em 2013, após a Conferência Nacional de Saúde Mental (2011) ficou estabelecida e estruturação da rede de atenção psicossocial por território (RAPS) pela Lei 3088/2011.
Assim, algumas cidades da região centro norte tiveram oportunidade de implantar Caps I sem o pré-requisito anterior de terem mais de 20 mil habitantes, mas, por avaliação da equipe que construiu a Raps regional em 2013.
Mirangaba, onde eu já havia iniciado o trabalho de territorialização do cuidado com um ambulatório de atenção psicossocial e visitas aos territórios em 2005, implantou seu Caps I em 2014, mas, já com grande resolutividade no cuidado com pessoas com demandas de saúde mental, reduzindo drasticamente o número de internações.
A jornalista Cibele Gentil da Bnews com o título: E quando não tem Caps? Os desafios da saúde mental em pequenas cidades do interior da Bahia, abordou as dificuldades de cerca de 60% dos 417 municípios baianos, nessa condição, quando apenas 50% das cidades estaduais têm Caps.
No meu artigo para o “II Seminário nacional de Humanização” eu já alertava para esta realidade, pois já havia participado da implantação de dois Caps em Jacobina (2005 e 2006) conhecendo bem a realidade da cidade antes e depois dos Caps, mesmo com a atenção básica sem conseguir fazer o que preconiza o Ministério da Saúde para os territórios (Saúde Mental na atenção básica, caderno 34 da AB/ MS). As dificuldades de fluxo, estruturais, distancias entre as comunidades e os Caps, eram as mesmas e não desapareceram com a imediata implantação dos Caps.
Em Mirangaba iniciamos os trabalhos fazendo a territorialização do cuidado atuando junto aos agentes comunitários de saúde, junto as famílias e comunidades. Este relato estará detalhado no livro já pronto e na gráfica com o título: “Territorialização da Atenção psicossocial em Mirangaba-Ba: Tecnologia leve, valorização da cultura local e autonomia de cuidado.”
A jornalista cita como dificuldades, por informação do Agente Comunitário de Saúde Lázaro Figueredo dos Santos, coordenador do Sindicato dos agentes comunitários de saúde: “o primeiro obstáculo muitas vezes é a omissão da própria família, que tenta esconder que tem alguém com transtorno”.
Esse preconceito afeta diretamente na prevenção aos surtos psicóticos e no suicídio. Segundo a jornalista os municípios baianos de Paulo Afonso e Jequié estão nos dois primeiros da lista em índice de suicídios na Bahia, mesmo sendo cidades com mais de cem mil habitantes. Paulo Afonso chega a ter um índice de suicídio de vezes maior que Salvador.
O preconceito com os sofrimentos psíquicos, as dificuldades estruturais, equipes de saúde com vínculos empregatícios frágeis, sem vinculação com os territórios onde atuam, com formação específica insuficiente, comunidades com pouca informação geram um quadro muito complexo para promover adesão a tratamento não só aos sofrimentos psíquicos, mas de qualquer doença crônica.
No mês que o ministério da saúde trata sobre suicídio, a busca pela valorização de uma vida digna e com acesso aos serviços de saúde nos territórios deve ser muito mais enfatizado do que os sofrimentos das populações das pequenas cidades e povoados que convivem com as dores da exclusão há muito tempo. A grande diferença está na perda do vínculo comunitário e afetivo que parece ter se diluído nos lugares onde se conversava nas calcadas, na frente das casas, se valorizava a vida por ela ser singular.