
Cledson Sady é membro da Academia Jacobinense de Letras
Em momento de eleição polarizada no Brasil e conflitos dualistas na Europa e Estados Unidos as pessoas se dividem entre os que estão com a certeza de estarem certas e os idiotas que não enxergam a sua versão da verdade. Os que não pensam da mesma forma viram inimigos, fanáticos, do mal, qualquer que seja sua história de vida. Não concordou com sua posição, deve ir para a fogueira.
Essa posição não ocorre apenas nas eleições, em tese na política, como se eleição fosse a síntese da prática da cidadania e não de um jogo de poder, mas, no futebol, na religião e olhar de mundo.
Algumas pessoas falam de ultra direita e extrema esquerda no Brasil atual. Pode ser por falta de conhecimento ou de análise comparativa de momentos históricos, desconhecendo o nazismo na Alemanha ou as práticas de poder pós revolução Russa, exemplos claros de extremismos. Mas, pode ser apenas por seguir uma cartilha que orienta seguidores a macular a imagem daquele que não escolhe o mesmo lado, no chamado apoio de manada.
Numa cidade pequena, estas relações são quebradas a cada dois anos, mesmo em casa, no grupo religioso ou entre amigos. Até mesmo por quem não tem filiação ou atuação partidária, não participa do controle social ou não recebe vantagens pessoais, coisa comum aos políticos profissionais que no mínimo buscam privilégios.
Protágoras, filósofo do séc. V a.C., funda o relativismo, que prega a não-existência de verdades universais, mas a crença de que cada sujeito tem uma interpretação de tudo, construindo sua concepção de mundo. Sócrates foi crítico dessa ideia, pois entendia que o relativismo trazia em si uma contradição interna: Se são verdadeiras todas as opiniões mantidas por qualquer pessoa, então também é preciso reconhecer a verdade da opinião daquele que discorda dessa pessoa.
O realismo ingênuo ajuda a explicar esta polarização política brasileira e mundial: em vez de discordar de seus adversários as pessoas têm a tendência de difamá-los. É por isso também que algumas pessoas rapidamente rotulam qualquer relato que desafia sua visão de mundo como falso sem o uso da razão ou de conhecimento histórico. Este fenômeno foi amplificado pelas cartilhas partidárias e redes sociais, visto que os algoritmos mostram apenas opiniões daqueles que concordam entre si, ou que permitem seja apedrejado o diferente.
O termo “realismo ingênuo, usado na psicologia social, foi apontado por Lee Ross, na década de 1990, que o identificou como a tendência humana de acreditar que enxerga o mundo de forma objetiva e as pessoas que discordam são desinformadas, de má fé ou preconceituosas.
Por enquanto, num mundo polarizado entre o “bem e o mal”, parece não haver espaço para debates, somente para embates. E a discussão entre relativismo e verdade absoluta, ao que parece, persistirá pelos próximos milênios. A honestidade intelectual e ética deverão chegar antes.