
- Aristhela Amorim é Vice-Reitora da Faculdade AGES
O Jornal A Tarde desta quarta-feira (18) publicou artigo da Professora Aristhela Amorim. Confira na íntegra:
Durante muito tempo, associou-se liderança à rigidez e ao distanciamento. Quando uma mulher lidera com escuta, sensibilidade e presença, ainda há quem confunda essas características com fragilidade. É preciso afirmar com clareza: amorosidade não é fragilidade, é potência de liderança.
Talvez eu tenha aprendido isso antes mesmo de compreender o que era liderar. Filha de professora, cresci vendo o valor transformador da educação. Venho da zona rural de Paripiranga, no interior da Bahia, onde o ensino superior parecia distante. Em casa, a educação não era consenso. Meu pai não acreditava no poder transformador do ensino formal. Já minha mãe e minha avó reforçavam que estudar ampliaria horizontes. Entre vozes divergentes, escolhi acreditar na força da educação.
Fui a primeira da família a ingressar no ensino superior. Enfrentei desafios financeiros, conquistei bolsa e comecei a trabalhar ainda jovem. Aos 17 anos, tive a oportunidade de assumir a coordenação administrativa do Colégio AJIS, onde havia sido bolsista. Passei de aluna a gestora, liderando inclusive antigos professores. Ali compreendi que liderar é servir a um propósito maior.
Na educação, liderar vai além de metas e indicadores. É impactar vidas, realizar sonhos e construir futuros. Exige estratégia, visão sistêmica e capacidade de decisão, mas também humanidade, algo que tecnologia alguma substitui.
No Brasil, a presença feminina na alta liderança ainda é muito desigual. Mulheres ocupam cerca de um terço desses cargos, número que diminui nas posições executivas de topo. Entre os desafios está a necessidade constante de provar competência e equilibrar firmeza e sensibilidade. Romper esses paradoxos exige preparo, identidade e segurança.
Ao mesmo tempo, a liderança feminina traz diferenciais consistentes. A escuta ativa, o olhar atento às pessoas e a capacidade de perceber nuances fortalecem o ambiente organizacional.
Aprendi que autoridade não se impõe, se constrói. Liderar não é centralizar decisões, é formar protagonistas. Sempre busquei construir times com autonomia, alinhamento e propósito claro. Exigência e amorosidade não são opostas, são complementares. Ambientes com respeito, pertencimento e confiança tornam-se mais produtivos e sustentáveis.
Não precisamos endurecer para sermos respeitadas, nem suavizar nossa voz para sermos aceitas. Precisamos ser competentes, coerentes e corajosas. Ocupar espaços não é apenas uma conquista individual, é abrir portas para outras mulheres avançarem.
Se minha trajetória deixa uma mensagem, é esta: é possível liderar com firmeza sem renunciar à sensibilidade. Amorosidade não enfraquece a liderança, ela a torna mais humana e, sobretudo, mais potente.